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EXÉQUIAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um”. (Fernando Sabino)

As “grandes religiões” se despedem dos seus mortos de maneira diferente, algumas curiosas e extravagantes. No Hinduísmo, a maioria dos hindus é cremada. Se o morto é chefe de família, seu primogênito faz o trajeto segurando a tocha que ateará fogo à pira. As cinzas do morto são espalhadas ao vento ou guardadas no oratório da família. Chorar no ritual não é bem-visto.

De acordo com o Islamismo o enterro ocorre o mais rápido possível; o corpo é perfumado com cânfora e posto no caixão virado à direita com o rosto voltado para Meca.

O Judaísmo promove a higienização do cadáver realizada por não familiares; após o asseio, vestem-no com uma mortalha de algodão ou linho. Os atendentes, pedem em oração perdão ao morto pelo incômodo.

No Cristianismo a cerimônia de sepultamento é simples. Quando o velório não ocorre no cemitério, familiares e amigos carregam o caixão até a cova; mas os católicos fiéis ao clero também encomendam as exéquias.

As exéquias são os funerais da liturgia católica, com a Igreja oferecendo pelos mortos o Sacrifício eucarístico, memorial da Páscoa de Cristo. Como mistério, as exéquias se realizam com o corpo aguardando a vinda do Salvador e a ressurreição dos mortos.

Na confusão que se faz no cenário político brasileiro entre religião e ideologia, acompanhamos as honras fúnebres da seita lulo-petista da falecida presidente Dilma, apeada do cargo pela eutanásia do impeachment.

Uma das homenagens post-mortem de Dilma ocorreram com barulhentos quebra-quebras nas ruas de São Paulo. A liturgia black-blocs se parece com os ritos mortuários xintoístas, muito barulho, chocalhos, campainhas e apitos.

No Rio e em Brasília, assistimos enterros de desvalido, com pouquíssimas presenças e a maioria de pessoas que gozavam da intimidade da ex-autoridade defunta. No Nordeste, além das tradicionais carpideiras pagas para chorar encenando desespero, o culto foi a expressão de bolsistas da morte…

Não ouvi falar de Belo Horizonte e Vitória, mas em Curitiba e Floripa o cerimonial, com pouca gente, lembrou a “Serra da Velha” que acontece tradicionalmente na Quaresma, uma lúdica comitiva que percorre as ruas satirizando pessoas alcoviteiras e faladeiras.

Em Porto Alegre as cerimônias fúnebres de Dilma têm sido continuadas, pouca gente, mas constante no inconformismo com a sua ida e pedindo a sua volta…

A massa do povo brasileiro, que pediu o fim da corrupção e o impeachment nas ruas, vive um carnaval fora de época continuado, mas incompleto. Nessa funérea festividade do sepultamento de Dilma ficou faltando sua punição constitucional como infratora da Lei de Responsabilidade e ainda se carece das exéquias de um partido que se transformou numa organização criminosa.

O fim da imoralidade pública deve ser festejado como em Gana, na África, que no ensinar do grande Câmara Cascudo, a morte é sinônimo de alegria. Assim (e obrigatoriamente), os brasileiros exibem contentamento com a morta-viva Dilma putrefazendo os vírus contagiosos da maldade…

Os lulo-petistas já antecipam o velório do outro zumbi, Lula da Silva, que está na UTI da justiça respirando pelos aparelhos das copiosas provas apresentadas pelo MPF na denúncia ao juiz Sérgio Moro que, considerando-o réu, apressa as redações da imprensa a elaborar o seu epitáfio político.

Resta um consolo aos fanáticos seguidores da estrela da corrupção, o pensamento que Millôr nos deixou: “Do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus.”

Jorge Luis Borges

A UM GATO

Não são mais silenciosos os espelhos
Nem mais furtiva a aurora aventureira;
Tu és, sob a lua, essa pantera
que divisam ao longe nossos olhos.
Por obra indecifrável de um decreto
Divino, buscamos-te inutilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
É tua a solidão, teu o segredo.
O teu dorso condescende à morosa
Carícia da minha mão. Sem um ruído
Da eternidade que ora é olvido.
Aceitaste o amor desta mão receosa.
Em outro tempo estás. Tu és o dono
de um espaço cerrado como um sonho.

Augusto dos Anjos

Canto de Agonia

Agonia de amor, agonia bendita!
– Misto de infinita mágoa e de crença infinita.
Nos desertos da Vida uma estrela fulgura
E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:
– Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como
Chorei, ontem, a sós, num volutuoso assomo,
Numa prece de amor, numa delícia infinda,
Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda
Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre
Mágoas soluço, até que esta dor se concentre
No âmago de meu peito e de minha saudade.
Amor, escuridão e eterna claridade…
– Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve,
Frio que me assassina, amor e frio, neve,
Neve que me embala como um berço divino,
Neve da minha dor, neve do meu destino!
E eu aqui a chorar nesta noite tão fria!
Agonia, agonia, agonia, agonia!
– Diz e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo
O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo
Uma sombra que passa, uma nuvem que corre,
Caminha e vai, o louco, abraça a sombra e… morre!
E a alma se lhe dilui na amplidão infinita…
Agonia de amar, agonia bendita!

EVIDÊNCIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O maior pecado contra a mente humana é acreditar em coisas sem evidências” (Aldous Huxley)

Nada melhor para comprovar a participação e chefia de Lula no assalto institucionalizado pelos governos do PT, do que o verbete encontrado no Dicionário do Aurélio: “Evidência”: (é a qualidade do que é evidente e incontestável; certeza manifesta; o que não oferece dúvida.

No coloquial, usamos “evidência” para invocar a veracidade de um determinado fato; mas no mundo jurídico há controvérsias provocando polêmicas entre advogados, juristas e magistrados, sobre a analogia entre evidência e prova.

Navegando na Internet, encontramos uma interessante colocação sobre o significado de “evidência” nas “Gramatigalhas” do professor José Maria da Costa, onde, além da etimologia e sinonímia, traz a Lógica Formal definindo “evidência” como aquilo que está claro para todos e é por todos aceito sem necessidade de demonstração ou comprovação.

Nas pesquisas também descobrimos uma referência ao livro “Controlando a evidência: o juiz e o historiador” de Carlo Ginzburg, que apresenta a evidência “como pista ou prova, uma palavra crucial para o historiador e para o juiz”.

Para discordar, temos os esclarecimentos do advogado, professor e escritor Ives Braghittoni, afirmando que evidência e prova não são sinônimos ao contrário do que muita gente pensa; diz que o engano se deve às traduções malfeitas do inglês, onde ‘evidence’ não é ‘evidência’, mas sim prova.

Braghittoni fala que “Evidência significa aquilo que é claro, inequívoco, muito visível, incontestável. Prova, muito diferentemente, é um meio de demonstrar que um fato é verdadeiro. Ou seja, se existem muitas provas de um fato, pode-se dizer que esse fato é ‘evidente’ (muito claro, muito visível) ”.

Ribomba no horizonte político a denúncia do Ministério Público Federal contra Lula e comparsas. O relatório é portador de provas e evidências contra ele, a esposa Marisa e outros protagonistas no esquema de lavagem de dinheiro. Apresenta documentos do tríplex e revela recebimento de propinas da OAS.

As evidências são de domínio público; as provas vêm nos contratos da OAS com a Petrobras que o delator Leo Pinheiro afirma que R$ 3,7 milhões foram pagos a Lula, o que lhe imputa crimes de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro.

Segundo a denúncia do MPF, “Lula recebeu propinas de forma dissimulada, por meio da reserva e reforma de um apartamento tríplex em Guarujá, no litoral de São Paulo, e no custeio do armazenamento de seus bens”.

Cumprindo o seu ofício, os advogados de Lula disseram que Lula e sua mulher, Marisa, “repudiam pública e veementemente a denúncia”, a qual chamam de “peça de ficção” e de “truque de ilusionismo”… Segundo a defesa, o apartamento não está em nome dos Lula da Silva, como as contas na Suíça não estão em nome de Eduardo Cunha…

A ficção e os truques de ilusionismo são puras chicanas dos bem remunerados causídicos do ex-presidente; pois, além das provas apresentadas e da colaboração premiada, as evidências são irremovíveis. As notas anteriores de propriedade saídas na imprensa e não desmentidas, e as visitas familiares ao imóvel, comprovadas com encomendas arquitetônicas e mobiliares.

Além de “esquecer” a reserva e a reforma do apartamento em Guarujá, a defesa de Lula omite intencionalmente a contundente (e evidente) prova da ligação espúria de Lula com a OAS, pelo custeio do armazenamento das suas ‘tralhas’, entre os quais itens subtraídos do Alvorada.

É igualmente curiosa a falta de explicação para a dissimulação do recebimento de propinas através das “palestras” não registradas pelos promotores e o “palestrante” em qualquer agenda ou ata oficial. Acrescente-se ainda as suspeitas doações ao Instituto Lula.

Dessa maneira, misturamos provas e evidências, mostrando que Lula e o PT são os maiores beneficiários do esquema criminoso implantado pelo corrupto governo petista ao longo de mais de 13 anos…

 

Paulo César Pinheiro

ARREBENTAÇÃO

Que mistérios que são
As águas do mar
Onde os barcos se vão
Temendo ficar
Que mistérios que são
Os brilhos do olhar
São faróis de ilusão
Pra quem quer amar
Verde, negro, azulão
São cores do mar
De onde uma embarcação
Jamais sairá
Verde, negro, azulão
São cores do olhar
Onde a nossa paixão
Costuma afundar
Noites de assombração
Nas ondas do mar
São como um coração
Com medo de amar
Dor de amor é um arpão
Lançado no peito
Feito arrebentação
Na beira do mar
Quando a separação se dá
Fica a recordação
No fundo de cada olhar
Como os barcos que estão
No fundo do mar.

Elizabeth Bishop

UMA ARTE

A arte de perder – até um traste
aprende; e há tanta coisa que pretende
a perda, que perder não é desastre.

Todos os dias perca algo. Afaste
a dor de ter perdido a chave, o tempo.
Ora, perder aprende até um traste.

A prática da perda então se alastre
por nomes e lugares, e onde pense
viajar. Que nada irá trazer desastre.

Perdi o relógio da mamãe; não baste,
das casas, a que mais me fez contente.
Ora, perder aprende até um traste.

Perdi duas cidades. E, em contraste,
dois rios, um domínio e continente.
Sinto saudades. Mas não foi desastre.

– Mesmo perder você (a voz, o gesto
que eu amo), tanto faz. Que até um traste
aprende a arte de perder, se bem
que se pareça (escreva!) com desastre.

Sá Carneiro

Fios de oiro puxam por mim

 

                                                                              a soerguer-me na poeira —

 

                                                                              Cada um para seu fim,

 

                                                                              Cada um para seu norte…

 

                                                                              ……………………………………………………………

 

 

 

                                                                              — Ai que saudade da morte…

 

 

 

                                                                              ……………………………………………………………

 

 

 

                                                                              Quero dormir… ancorar…

 

 

 

                                                                              ……………………………………………………………

 

 

 

                                                                              Arranquem-me esta grandeza!

 

                                                                              — P’ra que me sonha a beleza

 

                                                                              Se a não posso transmigrar?…

 

FANATISMO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos” (Nietzsche)

“Fanático” é um verbete de origem latina ‘fanaticus’, que foi adotado pelas línguas neolatinas com a mesma raiz.  Do francês, o termo “fanatisme” nos chegou como “fanatismo”; e do inglês, “fanatic”, originou-se a abreviatura “fan”, que se adaptou em português como “fã”.

O significado comum de fanatismo é de admiração excessiva por alguém ou alguma coisa, obstinação por determinada crença religiosa, doutrinária ou política. Designa normalmente facciosismo, partidarismo ou proselitismo.

Em religião, é uma devoção desmedida, e, na política, uma reverência por uma pessoa, geralmente um ditador nos sistemas totalitários. Na Alemanha nazista, Adolfo Hitler era adorado; e na URSS, o exagerado culto da personalidade de Stálin.

O fanático mantém uma crença exclusiva e intransigente, tendo uma visão maniqueísta da realidade, cultivando a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar.

Será que preciso desenhar para personalizar um lulo-petista??? Quem, na política brasileira adota uma conduta fanática, agressiva, chegando às raias da irracionalidade?

Embora sem surpresa, constatamos o comportamento doentio e perigoso dos lulo-petistas ameaçando usar a violência para impor o seu ponto de vista distorcido, contrário à razão. Psicanalistas freudianos vêm nisso uma manifestação paranoide, que se avizinha do delírio.

Esse distúrbio mental aflora com mais intensidade agora, após a denúncia do MPF contra Lula da Silva, o chefe da Propinocracia instalada no Brasil pelo PT. Lula é, sem dúvida, o responsável pela esteira de crimes cometidos contra o Patrimônio Nacional, coordenando empreiteiras e comandando seus asseclas e parentes.

Mesmo comprovada a saga criminosa de Lula, a cegueira facciosa leva seus fanáticos a encetar a campanha “Somos Lula”, o que, traduzindo para o bom português, quer dizer “somos cínicos”, “somos desonestos”, “somos mentirosos”, “somos lavadeiras de dinheiro”, “somos formadores de quadrilha”…

De um modo geral, o fanático sofre um transtorno de personalidade. Entre as características clínicas, sobressai a frieza emocional. É o que vemos entre as pessoas incapazes de interagir diante das copiosas provas de atuação delituosa do Pelegão.

É também frequente o fingimento de fanatismo (fingir é outra expressão enfermiça) pela fragmentação esquizofrênica na estrutura ideológica. Os zumbis lulo-petistas, vagam como mortos-vivos inconformados com o fim da Era da Pelegagem.

É evidente que nem todos que acompanham e aplaudem os arroubos demagógicos de Lula são “esquizoides”, conforme a classificação de Eugen Bleuer; há entre eles inúmeros saudosistas, antigos usufrutuários de verbas ilegais ou empregos por aparelhamento. Neles, é facilmente encontrada a formação lombrosiana para o delito.

Nosso epigrafado, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche é correto ao associar o fanatismo com a fraqueza de caráter, diante do quê Émile-Auguste Chartier arremata com uma vacina para o vírus lulo-petista: “Não se pode raciocinar com os fanáticos; temos de ser mais fortes que eles”.

Machado de Assis

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume”!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”…
 

Lêdo Ivo

O portão

O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.